13 de fev de 2012

Precisamos Falar sobre Kevin


Experiência masoquista, em que a maior parte do tempo convivemos com o relacionamento problemático entre mãe e filho. A mãe passa por um grande calvário, sofrendo todo tipo de humilhação e pressão. O filho é um psicopata que gosta de vê-la sofrer. O filme cansa um pouco com seus inúmeros flashes da protagonista em tempos diferentes e fora de ordem cronológica e também devido às inúmeras cenas em que o vermelho representa o sangue que irá marcar a vida da protagonista. Tilda Swinton em interpretação marcante e sofredora, é um dos únicos prazeres do filme, embora que como ela sofra o filme inteiro, não dá pra chamar bem de prazer.

Minha Cotação: * * *


CRÍTICA | CRÍTICOS.COM.BR

A LUTA DEMOCRÁTICA ou O DIA

Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
19/1/2012 
http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=2295


A revista moralista /Traz a lista dos pecados da vedete / E tem jornal popular que
nunca se espreme porque pode derramar / É um banco de sangue encadernado / Já vem pronto e tabelado / É somente folhear e usar
(“Parque Industrial”, de Tom Zé, no disco “Tropicália ou Panis et Circensis”)

No Rio de Janeiro dos anos 1950 e ’60, as bancas de jornal exibiam (e vendiam aos montes) jornais que eram motivo de um chiste famoso: “Se espremer, pinga sangue”. Vendiam por atender a uma demanda comum no ser humano ligada aos seus impulsos voyeuristas e/ou sádicos. Suas manchetes eram sempre dedicadas a crimes, até mesmo acentuando o lado mórbido e escatológico dos fatos noticiados.

Não li o livro que deu base a este filme, mas suponho que seu sucesso como best-seller caminhe na mesma direção. A mídia descobriu tardiamente o que a psiquiatria já sabia há muito tempo: existem psicopatas. Não são esquizofrênicos nem bipolares, não “saem da realidade” por meio de delírios e/ou alucinações, mas “não podem ser normais” no senso comum. Se tentarmos enfocar um dos muitos ângulos que tentam descrever o que deve ser a mente de um psicopata, poderíamos dizer que eles não têm nem identificação com as outras pessoas (não vêem os outros como assemelhados, não se identificam com os sofrimentos que causam aos outros); nem muito menos são capazes de empatizar (tentar perceber no outros - naqueles mais diferentes, estranhos, estrangeiros - qual é o ponto de vista deles, aquilo que não nos é familiar, mas diz respeito à individualidade alheia). Por outro lado, pode haver uma espécie de "empatia perversa" detectando os pontos frágeis das outras pessoas: um torturador eficiente vai saber exatamente como "dobrar" a pessoa que ele vitimiza. É mesmo um mistério essa personalidade que usa “a máscara da sanidade” no dizer de um velho livro sobre o assunto, Mas sob a máscara...

O filme de Lynne Ramsay poderia ter um certo álibi se lembrarmos o que Godard dizia sobre sangue nos filmes: “Não é sangue, é vermelho”. Era, Jean-Luc, era... Há muitos anos, o vermelho do sangue exibido em filmes é mais parecido com o sangue mais escuro do que o vermelho-coral da velha Hollywood. Atualmente foge-se da mera representação do sangue para tentar dar um hiperrealismo às imagens de corpos destruídos nas telas. Mas a diretora Ramsey usa e abusa do vermelho, a cor, como metáfora da destrutividade: desde a cena inicial onde centenas de corpos vistos de cima parecem banhados em algo semelhante a massa de tomate... até a geléia de morango transbordante dos sanduíches que o menino ou adolescente Kevin prepara. As cenas do massacre escolar nem são tão explícitas, mas o que o filme tenta mobilizar e envolver é a curiosidade sobre um enigma: como nasce – ou se desenvolve – um psicopata?

Sem poder responder satisfatoriamente àquilo que a psicologia e a psiquiatria não conseguem explicar nem compreender muito bem (e talvez não haja o que explicar nem compreender, talvez se trate tão somente de uma das variáveis nos modos de ser dos seres humanos), o filme fica no limbo ao acentuar os desencontros entre mãe e filho, sugerindo, ora que a mãe não foi suficientemente boa, ora que não haveria mesmo como lidar com aquele pequeno monstro tão precocemente desafiador e perturbador.

Não há temas interditados para serem retratados na literatura, cinema, teatro, etc. mas como diz Fran Lebowitz no documentário de Martin Scorsese Fran Lebowitz: Falando em público, o gênio musical não precisa saber muito mais do que sua música para ser um gênio, mas um escritor precisa conhecer sobre aquilo que pretende escrever. Um roteirista de cinema e um diretor também. Grandes escritores desde há muito tempo já foram capazes de intuir o que a psicologia, psiquiatria e psicanálise só começaram a estudar há pouco mais de um século. Basta ler as tragédias gregas, Shakespeare, Dostoievski – dentre os mais “trágicos”-, ou Balzac, Henry James, Proust... Eles observaram e retrataram os melhores e piores aspectos do que é “demasiadamente humano” sem incorrer em exploração do mal apenas para mobilizar a atenção (e identificação inconsciente do que em nós é traço perverso na fantasia - mas nos psicopatas é mais do que fantasia: ação, passagem ao ato).

Mobilizar para vender livros. Ou no caso, filmes. Mas diferentemente do que vemos em obras dignas de Buñuel (enquadradas por André Bazin como "Cinema de Crueldade")We need to talk about Kevin é enfeitado com maneirismos de câmera e de edição, cores trabalhadas (bastante vermelho), planos fechados em rostos intensos (como a sempre intrigante máscara facial de Tilda Swinton), montagem "paralela" e anacrônica dos eventos, etc etc. Mas se espremermos, tal como nos jornais antigos do Rio (“A Luta Demcorática”, hipócrita nome de um deles; ou “O Dia”, de posse de um político populista e como tal, tão ou mais hipócrita) só sai mesmo nossa sede de “sangue”.
Ou suco de tomate: molho sem massa.
Texto publicado anterioremente durante o Festival do Rio 2011
P.S.: Com um proposta menos ambiciosa e mais realista, o ótimo filme Tarde Demais(Beautiful Boy), de 2010, dirigido por Shawn Ku (com Maria Bello e Michael Sheen em comoventes interpretações) passou em branco por aqui graças, em grande parte, ao seu péssimo lançamento no Rio no final de 2011 em poucas salas e horários. Prêmio FIPRESCI no Festival de Toronto 2010 este outro filme enfocava a mesma situação deKevin mas a partir da tragédia acontecida. Sem pretensões quanto aos "porquês", esmiuçava o esfacelamento emocional dos pais de um garoto que havia cometido um massacre em sua escola, tudo sem firulas, com enorme seriedade de propósitos e resultados. Aguardemos o DVD para resgatar esse pequeno grande filme.


FICHA TÉCNICA
Diretor: Lynne Ramsay
Elenco: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Siobhan Fallon, Ursula Parker, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Erin Maya Darke, Lauren Fox
Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Fotografia: Seamus McGarvey
Trilha Sonora: Jonny Greenwood
Duração: 110 min.
Ano: 2011
País: Reino Unido/ EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: independente / BBC Films / Atlantic Swiss Productions / Lipsync Productions / Artina Films / Footprint Investment Fund
Classificação: Livre


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