27 de jan de 2013

Hitchcock em 2 filmes


Anthony Hopkins como Alfred Hitchcock
Dois filmes sobre Alfred Hitchcock investigam sua personalidade controversa
"Hitchcock" e "The Girl" guardam algumas semelhanças e algumas diferenças sobre o mestre do suspense, um dos melhores diretores de todos os tempos 
por Fábio Pastorello

Vez por outra o cinema tem essas coincidências: dois ou três filmes são lançados no mesmo ano, sobre o mesmo tema. Fico feliz que chegou a vez de Alfred Hitchcock, o diretor inglês também conhecido como mestre do suspense, realizador de clássicos como "Um Corpo que Cai" e "Janela Indiscreta" e que nunca ganhou um Oscar em toda a sua carreira. Ainda que esses dois filmes recentes não sejam sobre toda a carreira do diretor, mas sobre momentos específicos de sua trajetória, trazem muito de quem era o diretor, ou das polêmicas que envolviam sua personalidade.




Helen Mirren interpreta Alma Reville, sua esposa e
grande colaboradora em sua carreira
"Hitchcock" (Hitchcock, 2012) é dirigido pelo estreante Sacha Gervasi (roteirista do filme "O Terminal", com Tom Hanks) e tem como intérprete do mestre do suspense nada menos do que Anthony Hopkins ("O Silêncio dos Inocentes"). A expectativa quanto à interpretação de Hopkins era grande, e me surpreende que ele não tenha tido indicações aos prêmios como teve Helen Mirren ("A Rainha"), que interpreta sua mulher Alma Reville. Debaixo de muita maquiagem (essa sim indicada ao Oscar), Hopkins apresenta um trabalho de pequenas nuances de interpretação, mas que traz grande densidade e profundidade ao "personagem". Mirren, como a ofuscada esposa de Hitch (como ele gostava de ser chamado: "You may call me Hitch. Hold the Cock", é uma das divertidas frases do filme), traz uma boa interpretação, como de costume, mas nada fora do normal.

O filme, roteirizado por John J. McLaughin (também roteirista do brilhante "Cisne Negro") e inspirado no livro "Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose", de Stephen Rebello, começa no momento em que "Intriga Internacional" acaba de ser lançado, e Hitch parte em busca de um novo projeto. Um livro desperta seu interesse: "Psicose", sobre um assassino que mantinha o corpo de sua mãe em sua casa. A história choca as pessoas e Hitchcock encontra dificuldade para realizá-la, enquanto atravessa uma crise matrimonial com Alma.

Hitch lê o livro Psycho e é atraído pelo famoso
assassinato no chuveiro
A produção consegue transpor toda a paixão de Hitch pelo cinema, que faz de tudo para tentar transportar aquela história para o cinema, até mesmo hipotecando sua casa. Em determinado momento, Hitch explica para sua esposa a importância daquele filme para ele. Ele deseja recuperar a emoção (e os riscos) que sentia no início de sua carreira.

Mas um dos momentos mais emocionantes é quando o diretor acompanha a reação de seu público à famosa cena do chuveiro de "Psicose". Após fazer toda uma preparação da sala do cinema para que a emoção do público seja potencializada (como faz falta hoje em dia essa preocupação com a experiência do espectador no cinema), o objetivo é alcançado e Hitch rege os gritos como se fosse uma orquestra. Paixão pelo cinema e pelo público.

Livro com entrevistas realizadas pelo
crítico e cineasta François Truffaut
No meu livro de cabeceira "Hitchcock/Truffaut Entrevistas", o cineasta explica ao crítico de cinema francês François Truffaut, a forma como realiza o filme pensando em como sua platéia irá reagir. Por exemplo, no trecho da entrevista sobre "Psicose", vemos como tudo é pensado e orquestrado para provocar uma reação, uma emoção na platéia. Desde o roteiro, que é todo trabalho para que a morte de uma personagem-chave seja inesperada (inesperada mesmo), passando pelo casting (Hitch escalou uma estrela para interpretar uma personagem que morre no meio do filme) até os ângulos de câmera (um ângulo de cima mostra a suposta mãe cometendo uma assassinato, pois se o ângulo fosse detrás, ficaria claro ao espectador que o filme está querendo esconder alguma coisa).

Hitchcock afirma que "é preciso desenhar o seu filme como Shakespeare construía suas peças, para o público". Se algumas das produções do cinema recente falham, é porque ou não pensam no público, ou não o fazem com o esmero e genialidade que Hitchcock fazia.

Voltando à produção de 2012, o filme também investiga o relacionamento e a importância de Alma Reville para sua carreira. Nesse aspecto, o filme guarda várias semelhanças com a produção para a TV "The Girl" (2012, feita para a rede inglesa BBB), dirigida por Julian Harrold, e no qual Hitchcock é interpretado por Toby Jones (que interpreta Truman Capote em "Confidencial"). Enquanto "Hitchcock" foca mais na paixão do cineasta pelos filmes, "The Girl" foca mais em sua personalidade controversa e sua fixação pelas atrizes protagonistas de seus filmes. Não que "Hitchcock" não aborde isso, há toda um conflito entre Alma e Hitchcock baseado no ciúme dela pelas atrizes e também na suspeita dele em relação a uma traição. Mas "The Girl" é baseado num livro que fala justamente sobre a fixação dele pelas loiras de seu filme ("Fascinado pela Beleza: Alfred Hithcock e suas Atrizes", de Donald Spoto).

O Hitchcock de Toby Jones: mais sinistro
"The Girl" é quase todo contado a partir do ponto de vista de Tippi Hedren, a protagonista de "Os Pássaros", interpretada por Sienna Miller (de "G. I. Joe - A Origem do Cobra"). Ela sofre nas mãos de Hitch durante a realização do filme, sofrendo assédio sexual e se ferindo em diversas cenas. Numa cena de "Os Pássaros" em que a personagem entra num quarto que está repleto de pássaros, a filmagem supostamente usaria pássaros mecânicos e levaria apenas um dia, mas Hitch a realiza em cinco dias com pássaros de verdade. Tippi saiu machucada das filmagens e até um pouco traumatizada. Em momento posterior, Hitch conversa com ela e pergunta se não valeu a pena.

Curioso que em "Hitchcock", há também uma cena crucial em que o diretor interfere para trazer mais realidade à cena, quando na filmagem da cena do chuveiro, ele toma a faca das mãos de uma dublê e começa ele mesmo a simular as facadas sobre Janet Leigh, atriz de "Psicose"(no filme interpretada por Scarlett Johansson). Duas cenas antológicas da história do cinema, e a mesma maneira controversa de Hitchcock filmá-las, trazendo o máximo de realidade às cenas, mas também torturando psicologicamente suas atrizes.

Em outro momento ainda mais emblemático de "The Girl", Hitch transforma Tippi para as filmagens de   "Marnie", filme que ele realizou na sequência de "Os Pássaros", ainda com a mesma atriz. Ela pinta os cabelos, assim como a personagem de Kim Novak em "Um Corpo que Cai", e o filme sugere através da trilha a semelhança entre ficção e realidade. Essa situação, do modo como Hitch gosta de transformar, de quase moldar suas protagonistas, também é relatado em "Hitchcock", quando Vera Miles (Jessica Biel) e Janet Leigh conversam.

Infelizmente, a realização de "The Girl" fica aquém do esperado, e cenas como essa (da transformação de Tippi) são mal desenvolvidas. O filme também fica a desejar no modo caricato como relata Hitchcock, quase como um psicopata, e transformando a personagem de Tippi numa heroína que resiste bravamente às torturas do diretor. Se o filme pretendia adotar o ponto de vista de Tippi, deveria ter evitado desenvolver diversas cenas em que Tippi não tinha como saber o que aconteceu, como situações matrimoniais entre Hitch e Alma (aqui interpretada por Imelda Staunton, de "Vera Drake", mais convincente como Alma do que Helen Mirren). Enfim, erra no enforque, transformando o que seria o ponto de vista da atriz, numa verdade narrativa.

Jones e Sienna Miller como Hitchcock e Tippi
Por outro lado, "The Girl" se parece mais com um filme de Hitchcock, pelo clima de suspense que constrói em torno do relacionamento de Hitch com Tippi (que é lançada ao estrelado e encerra sua carreira sob influência dele), inclusive com ângulos de câmera (uma cena de uma escada em espiral, por exemplo, remete a "Um Corpo que Cai"), trilha sonora ou figurinos. É notável, por exemplo, a semelhança física que Sienna atinge em relação a Tippi.

O humor latente de Hitch também está menos presente em "The Girl", e muito melhor desenvolvido pelo Hitchcock de Hopkins. Naquela fase, por exemplo, Hithcock enfrentava uma mudança em sua carreira, trabalhando para a TV na série "Alfred Hitchcock Apresenta", que o tornou uma celebridade. O filme ilustra bem essa fase, trazendo Hitch apresentando e encerrando o filme, exatamente como fazia na série de TV.

De qualquer forma, ambos os filmes revelam-se extremamente interessantes para entender (ou especular) um pouco mais sobre a vida, a carreira e as paixões desse diretor. Acompanhar detalhes dos bastidores das produções, como as ideias dos filmes nasceram ou foram desenvolvidas, como era a relação de Hitch com sua equipe, com a mídia, com os estúdios ou com o público, é um deleite para os fãs do diretor e até mesmo para os fãs de cinema. E quem sabe seja uma inspiração para novos diretores o talento que Hitchcock tinha para manipular as emoções do público, sem o pudor que parece haver hoje em dia em relação a isso, e perceber que para todo cineasta, "é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa".

"Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro". (Hitchcock/Truffaut Entrevistas, 1932-1984).

"Hitchcock"(2012). Cotação: * * * * 1/2

"The Girl"(2012). Cotação: * * * *

Veja o vídeo de marketing na época de exibição de "Psicose" no cinema. Numa época em que os cineastas e os exibidores realmente se preocupavam com a experiência de ver um filme na sala de cinema.




8 comentários:

  1. Muito bom! Assisti apenas The Girl, que achei meio "gossip" demais, apesar das grandes atuações. Cada vez mais impressionado com o Toby Jones, um camaleão, de fato. Ainda quero assistir o Hitch do Hopkins... Mas ótima crítica, Fábio!

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    1. O "The Girl" tem esse lado meio "gossip" mesmo, talvez pelo fato de justamente adotar o ponto de vista da Tippi Hedren ao invés de um ponto de vista mais amplo. Mas eu curti mesmo assim, achei gostoso e interessante de assistir, com algumas ressalvas. Depois me conte o que achou do outro Hitch. Abs.

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  2. ótimo meu amigo! Vou seguir seu blog e linkar.

    Sou fã de Hitchcock e ainda preciso assistir ambos os filmes. As críticas estão mornas quanto a eles, mesmo assim, estou motivado a conferir o quanto antes. Hopkins e Toby Jones são duas figuras que aprecio bastante.

    O livro Hitchcock/Truffaut, sobre o mestre, é sem dúvida o meu predileto.

    Abs.
    http://cinemarodrigo.blogspot.com.br/

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    1. Valeu, Rodrigo. Pois é, eu li algumas críticas, principalmente em relação ao "The Girl", mas só por falar de Hitchcock e dos bastidores do cinema, para mim os dois filmes já ganham vários pontos. Abs.

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  3. Só me interessei pelo do Anthony Hopkins... mas se passar no cine devo assistir aos dois. Tô bem curioso, principalmente pra ver a cena do chuveiro.

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    1. O outro não passar no cinema, Luiz, foi feito para TV. Mas o do Hopkins com certeza é uma boa opção, achei que estaria em cartaz já nesse fim de semana, mas só entra em março.

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  4. Muito interessante esse seu artigo, Fabio. Hitchcock/Truffaut é um livro que guardo com apreço. Não assisti (ainda) ao "The Girl", mas pretendo conferi-lo. Quanto ao "Hitchcock", visualizo uma homenagem a Alma Reville Hitchcock, pois o filme mostrou a importância e a força que essa mulher teve na vida do mestre. E isso foi potencializado com o trabalho magistral de Hellen Mirrem. Gostei demais da ultima cena entre o mestre com Vera Miles (Jessica Biel) - sensível e resignada, como também do tom terno e profissional dado por Scarlett Johansson à grande Janet Leigh. A cena da primeira sessão de Psicose no cinema foi um dos pontos altos do filme. Quando possível, conheça meu blog: http://www.oenigmadomartelo.com/. Abraços.

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    1. Obrigado, Gilvan. Realmente, a cena da primeira sessão de Psicose foi um dos pontos altos do filme, senti toda a paixão de Hitch pelo cinema ali. Vou conhecer seu blog sim, abs.

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